sexta-feira, dezembro 09, 2005

A mudança extraordinária

A viagem da Secretária de Estado norte-americana Condoleeza Rice à Europa deu que falar. O tema, quase exclusivo, a "questão" dos voos da CIA, a tortura e o outsourcing da dita. Em pano de fundo, os Estados europeus, a possibilidade de alguns terem aceite coisas pouco confessáveis, a decisão da Câmara dos Lordes britânica que proíbe, ao arrepio de uma decisão desonrosa do Court of Appeal, que as confissões obtidas sob tortura feita por outros possam valer como prova contra acusados em tribunais britânicos. Declaração fundamental da Senhora Secretária de Estado, os Estados Unidos consideram-se vinculados pelas obrigações da Convenção para a Prevenção da Tortura, Tratamentos Cruéis, Desumanos e Degradantes, em território americano e fora deste. Em circunstâncias normais, a afirmação nem viria citada nos jornais, por banal e óbvia. Mas não, triste sinal dos tempos, é mesmo uma novidade na prática recente dos EUA. Come efeito, Guantánamo iniciou uma aberração jurídica, política e de valores, em que algumas pessoas - recuso-me a chamar-lhes juristas - procuraram demonstrar que, se aquela base não era território americano (é território cubano arrendado aos EUA), então os estados Unidos podiam ali fazer o que quisessem, numa no man's land assustadora. Para se perceber melhor o brilhantismo da construção, era como se Portugal pudesse torturar à vontade em qualquer cela de Macau, enquanto aquele território não foi devolvido à China...
Seja como for, menos mau, embora fiquem muitas coisas por esclarecer. Por exemplo, o que é tortura para os Estados Unidos? Onde começa? Segunda questão, e se a tortura for praticada por Estados para onde se realiza esta exportação macabra, como se controla (em quem controla?) o que ali é feito? Terceira pergunta, quais os Estados europeus que participaram nesta vergonha, agora que, de repente, começam a chover as declarações do tipo "eu já sabia disso há muito"? Finalmente, e agora? Quem e como vai responder pelo muito mal que já foi cometido e já não tem - em alguns casos - remédio?

P.S. Já agora, hoje, num debate na TSF em que participava o Vasco Rato, gaffe monumental. A dado passo, atirei qualquer coisa do género começam agora a ver-se os ratos a abandonar o navio... Quando dei conta da graçola involuntária, eu que já quase nada faz corar fiquei como um tomate, e lá tentei balbuciar desculpas pela atoarda. Too late. E sorry again, Vasco Rato.

Debates?

Já entrados na saga dos debates, muitos com certeza já cansados do que vão ouvindo, e com pena porque há muita coisa que não vão ouvir. Por enquanto, com efeito, a demonstração de que o modelo escolhido (à americana) não serve para grande coisa. Os "moderadores" são promovidos a actores quase principais, uma vez que espartilham - mesmo que a contragosto - a exposição das ideias, servem de firewall para que de modo algum quem quer que seja possa ser apanhado de surpresa. Segunda consequência nefasta, cada um dos candidatos presidenciais é obrigado a parecer candidato a chefe do Executivo, de tal forma tem sido óbvio que não se estão a avaliar pessoas e a sua vocação para Belém, mas, muito mais do que isso, os dossiers que conhecem, as propostas sociais, políticas e económicas que defendem, etc. Tudo apostado, por isso, em baixar as vendas de Lexotan. Concorrência desleal às farmacêuticas?