terça-feira, janeiro 31, 2006

Precisamente

Em resposta ao comentário sobre o meu post Desacertos acho importante frisar o seguinte: não existe o direito à adopção. O que existe é o direito a ser adoptado. Adoptar é uma decisão muito importante para quem a toma mas é uma decisão que se destina em primeiro lugar a dar uma família a uma criança e não o inverso. Nesta linha as crianças deverão ser prioritariamente encaminhadas para famílias onde tenham um pai e uma mãe.

Sendo possível, como é, a adopção apenas por uma pessoa e não por um casal, não vejo razão para se não entregar uma criança a um ou uma homossexual - viva ele ou ela com ou sem outra pessoa do mesmo sexo. O que é substancialmente diferente de andarmos a usar as crianças como títeres para fazer de conta que se pode ter duas mães ou dois pais. Note-se que esta questão é considerada de tal modo importante na nossa identidade que, em Portugal, se entendeu ser impossível que alguém seja considerado filho de pai ou mãe incógnitos. Isto leva a que o EStado português abra processos de averiguação de paternidade ou de maternidade para as crianças que estão nestas circunstâncias.

HOJE SINTO-ME DINAMARQUÊS

domingo, janeiro 29, 2006

EMPRESA PRIVADA FAZ FRENTE AO GOVERNO NORTE-AMERICANO

Cortesia Scott Stantis, The Birmingham (Ala.) News, USA TODAY
Ao mesmo tempo que se ajoelha perante a China...

Desacertos

1)Manuel Alegre está de baixa. Entretanto foi caçar e reuniu no Altis. Os deputados não podem faltar sem recorrer ao estratagema da baixa?

2) O PUBLICO entrou estado de êxtase místico com o 'casamento' de dua cidadãs portuguesas. Como é habitual nas prosas prosélitas oscila-se entre a perfeição daquilo que se defende e a maldade dos outros. Nesta perspectiva os jornalistas não informam, exaltam. Assim para legitimar a imperiosa necessidade do casamento homossexual surge-nos uma criança, filha duma das senhoras, dizendo que espera com ansiedade pelo dia em que possa "ter duas mães".

Defendo que o Estado reconheça dignidade de contrato à união entre duas pessoas do mesmo sexo. Mas não é de modo algum aceitável que se menospreze o direito à identidade: nenhum de nós tem duas mães. E para servirmos a magnitude das nossas causas jamais devemos menorizar os direitos dos outros ou instrumentalizá-los.
Por fim parece-me importante sublinhar que o casamento não é de facto um contrato adaptável às nossas momentâneas conveniências. Ou simplesmente porque existe uma realidade que não podemos negar. Nesse caso acabaríamos a reconhecer a poligamia.

sábado, janeiro 28, 2006



Cortesia Doug Marlette

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Orlando da Costa

Morre um grande escritor, homem e cidadão cujo percurso assumiu dimensões tão medulares como a liberdade e a honradez, o inconformismo e a ética, o risco, os perigos e a coragem de os olhar sem tibiezas, o irredutível da esfera pessoal num contexto de energias solidárias. E o afecto, o sentido crítico, a lealdade nas relações inter-humanas. É por dentro de um silêncio dorido que aqui o evoco.
Desde o início próximo das experiências neo-realistas à margem de qualquer normativismo ou registo de escola, encontrou na ficção, como os companheiros do grupo da Faculdade de Letras, um espaço de testemunho e questionamento, fusão de pulsões socilógicas e introspectivas, renovo formal e memória, uma memória fundadora do devir e como que poliedricamente facetada. Com Augusto Abelaira e David, foi um autor maior da sua geração e da literatura portuguesa na segunda metade do século XX. De O Signo da Ira a Os Netos de Norton ou O Último Olhar de Manu Miranda, sem esquecer o trabalho poético e os livros de dramaturgia, preferiu sempre o esmero técnico e a longa maturação de cada projecto a uma obra em extensão e segundo ritmos que fossem tão-só o fruto de um protocolo mercadológico. Premiado, distinguido pelos seus pares, credor e alvo de todas as manifestações de respeito e apreço, deixa-nos em plena saudade e numa tristeza imensa.
Ao longo de décadas, nenhum gesto reteve no apoio ao associativismo dos escritores. Esteve nos momentos fulcrais da SPE (extinta pela PIDE e à mão dos dignitários da ditadura) e da APE. operoso como raros, lúcido e capaz de toda a generosidade. Foi e será à luz do seu exemplo que exerci e continuarei as funções em que estou investido.
Permita-se-me que lembre, sobretudo, o dilecto amigo. E que guarde para mim, nestas horas de acritude, cada canção que permanece depois da perda, cada gesto, cada legenda ainda por nascer.
Ao António e ao Ricardo, também neste espaço público, o meu abraço. Sabem ambos o que ele diz.

Então, Derrida.
1994, 29 de Setembro. Reunião, em Lisboa, do Parlamento Internacional de Escritores. O dia fora intenso e, por vezes, fracturado por conflitos de pequena história. Por exemplo, o que nos opôs, ao José Saramago e a mim, a quem presidia à sessão da manhã - um Christian Salmon aflito com o modo de gerir a segurança em torno de Taslima Nasrin. Pequena, mas não irrelevante história. Outro tema, outros contos. Talvez um dia, quem sabe. Disso falávamos à mesa do jantar, no Castelo São Jorge. (Quiseram as subtilezas do protocolo que ficássemos a noite inteira conversando, ali, junto ao edil, com mais amigos. ) E do projecto das cidades-refúgio, afinal um dos objectivos do encontro promovido na Gulbenkian, de Lévinas (cujo centenário do nascimento agora passa) e cinema e teatro e música e política, por fim bebendo café e fumando, de quando em quando uma suspensão para partilhar este ou aquele debate proposto ao conjunto e, nessa circunstância, recorrendo ao anglo-americano já feito língua-franca dos presentes. A dado instante, o presidente da Câmara ergeu-se e proferiu em francês (assim homenageando a vasta maioria dos convidados estrangeiros) uma intervenção de improviso, toda ela inteligência e saber, cultura e sensibilidade aos problemas suscitados pelo Parlamento, rigor e distensão oratória. Jacques Derrida quis que lhe desse conta do percurso desse autarca raro, que se exprimia - sem rugas ou sobressaltos formais - numa língua em declínio, arrebatando pela autenticidade e por um humanismo sem alardes. As palavras foram as que aqui reproduzo, recuperadas de um dos meus diários da época. À despedida, detiveram-se uns minutos em diálogo sobre o tronco comum entre hospitalidade e hostilidade e as posições que integram tantos lugares cintilantes da filosofia derridiana. Não sei se Jorge Sampaio recorda o episódio. Eu tive, na altura, a percepção profunda de que ele seria muito em breve Presidente da República do meu país. E do país do meu afecto.

pós debate

Três dúvidas apenas no fim do debate na AR:
a) Onde deixou Sócrates as inseparáveis muletas, peças biónicas desta campanha presidencial?
b) Para quando se prevê a nova aparição do nosso MNE? Note-se que não se avistava o nosso MNE desde que se travou de razões com a Grã Bretanha nuns tais preparos que nos fez recuar aos tempos belicosos do Ultimatum! Aliás onde esteve o nosso MNE durante a campanha presidencial?
c) E a derrama senhores? Vão as autarquias lançar ou não derrama sobre o IRS? Sócrates não respondeu à questão o que talvez seja uma forma de dizer NIM

O INEVITÁVEL SACO DE GATOS

A dormência aparente do que resta das "figuras" do PSD não será excessivamente abanada com o próximo Congresso. Porque é estatutário. Porque ainda não chegou o tempo de dizer que é tempo. Os próximos 2 anos arriscam-se a ser demasiado difíceis para quem liderar a oposição - o combate será desigual, os obstáculos em se ser do "contra" tendem a agigantar-se. Principalmente por causa de Cavaco.
Depois, como notou Pacheco Pereira, se forem aprovadas as "primárias" Marques Mendes corre o sério risco de se esgotar em reafirmações estéreis da sua própria legitimidade apenas porque foi eleito no sistema abolido.
Para quem espreita na sombra, a hora é de aguardar. Sem prescindir da guerrilha sorrateira e dos concertos aparelhísticos. Reprovando o Governo enquanto se critica a sua oposição. Mostrando-se sem se desgastar. Mas investindo sem liquidar.
Para António Borges, Luís Filipe Menezes, Marcelo Rebelo de Sousa, Rui Rio, Aguiar Branco, Manuela Ferreira Leite, Santana Lopes, e tantos outros que sonham com o melhor momento sem o confessarem, o pior que poderia acontecer era uma renúncia prematura de Marques Mendes. Querem-no lá para que a pior parte do percurso seja feita por alguém sem condições de o terminar.
Depois, quando for o tempo, todos os felinos, mais mansos ou mais assanhados, despertarão para a caçada.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

PALESTINA - aquilo que eu queria dizer

METADE DA GENTE DO MUNDO

Metade da gente do mundo ama a outra metade,
metade da gente odeia a outra metade.
Por causa desta e daquela metade terei eu de vaguear
e me transformar incessantemente como chuva no seu ciclo,
terei eu de dormir entre rochas,
tornar-me áspero como os troncos das oliveiras,
e ouvir a lua uivar para mim,
e camuflar o meu amor com receios,
e brotar como erva assustada entre os carris do caminho de ferro,
e viver submerso como uma toupeira,
e quedar-me com raízes mas sem ramos,
e não sentir a minha face contra a face de anjos,
e amar na primeira caverna,
e casar com a minha mulher sob uma abóbada de vigas que sustentam a Terra,
e expressar a minha morte,
sempre até ao último sopro e às últimas palavras e sem nunca compreender,
e colocar mastros sobre o telhado da minha casae um abrigo antiaéreo debaixo dela.
E ir apenas para regressar
e passar por todos os lugares –gato, pau, fogo, talhante, entre o cabrito e o anjo da morte?
Metade da gente ama, metade da gente odeia.
E qual é o meu lugar entre tais iguais metades,
e por que fenda verei eu o bairro de casas brancas dos meus sonhos
e as pegadas nuas na areia ou, pelo menos, o lenço da mulher que acena junto às dunas?

Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

(Publicado por Nuno Guerreiro na Rua da Judiaria)

TODAS AS GENERALIZAÇÕES SÃO FALSAS...

… incluindo esta última.
No programa de ontem, dia 25, a dado passo, falou-se do estado dos partidos. Disse que eram «fábricas de medíocres» que, por sua vez, eram «catapultados para postos na Administração, nas autarquias locais e nas mais diversas posições de favor» contribuindo, decisivamente, para o mau funcionamento das coisas no país.
Redundantemente entusiasmado, cheguei a afirmar que quando ocasionalmente deparava com alguns «tinha vontade de falar através de gestos» procurando ser mais facilmente entendido.

Acontece que não pretendia generalizar, embora, é certo, não tenha feito o competente aviso.
Há gente boa e competente nos partidos. Que depois alcançam cargos públicos e políticos. Ainda no dia anterior tinha encontrado gente do melhor em Aveiro. Mas esses bons, além de raros, são desvios à regra que procurei realçar. Existem mas são excepção.
Fica aqui a emenda retardada.

Ironias

Jacques Chirac anunciou uma mudança relativa na política de dissuasão nuclear do seu país. Doravante, a França reserva-se o direito de recorrer a uma resposta nuclear dirigida aos Estados que contra si lançarem um ataque com armas de destruição massiva (nucleares, químicas, bacteriológicas). Idêntica posição (menos cuidadosa, aliás) fôra já adoptada pelos EUA, pelo Reino Unido e, logo a seguir, pela Rússia. Ninguém ligou. Agora, tem sido uma escandaleira.
Prémio da reacção mais cómica: o Irão, que através do porta-voz do Conselho Supremo da Segurança Nacional declarou que este era "um assunto de inquietação para a paz mundial". Faz o que digo...
Porém, se à partida esta mudança (declarada como meramente de dissuasão) até poderia aceitar-se, colocam-se algumas questões. Primeiro, como determinar no imediato a responsabilidade do Estado "atacante"? Foi ele que atacou? Forneceu armas de destruição a um grupo terrorista para que ele organizasse e realizasse o ataque? Deixou apenas que esse grupo fizesse base no seu território?
E, problema mais fundamental: a arma nuclear é, por definição, um meio de destruição indiscriminado, que não distingue, obviamente, combatentes de civis - e, portanto, sempre ilícita.
Portanto, admitamos que a dissuasão pura e simples funciona. Óptimo. Mas, e se falhar? Vamos responder na mesma moeda? Os inocentes do outro lado merecem morrer porque os nossos morreram?

Pena exemplar

BBC News, 24.01.2006

"A US officer who faced up to three years in jail for killing a captured Iraqi general has been punished with a reprimand and a $6,000 fine.
Chief Warrant Officer Lewis Welshofer Jr was convicted last week of the negligent homicide of Maj Gen Abed Hamed Mowhoush in 2003.
Prosecutors said Gen Mowhoush was tied, placed headfirst in a sleeping bag and died with an officer sitting on him.
Welshofer has thanked his military "family" for supporting his defence.
"The military is a family when you get right down to it," he told a TV station in the US state of Colorado, according to the AFP news agency.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Jorge Coelho

Acabava eu de colocar o post e eis que percebo que oo comentário estava desactualizado: "Jorge Coelho demitiu-se hoje de coordenador de um grupo de trabalho da Associação de Turismo de Lisboa (ATL), um dia depois de a Assembleia Municipal (AM) da capital ter contestado a sua escolha para o cargo. (...) Jorge Coelho demite-se por considerar que não estão «minimamente criadas as condições necessárias» para continuar o seu trabalho no grupo de trabalho e que irá estudar, entre outras questões, a promoção turística da capital e as contrapartidas da construção do casino. O ex-ministro das Obras Públicas escreveu ainda que o convite para o grupo de trabalho da ATL foi «profissional» e não político" lê-se na página on line do EXPRESSO.

Choque Ideol�gico

Enquanto andamos entretidos a analisar o misterioso momento em que as campanhas descolaram ou não descolaram, na lusa terra acontecem coisas estranhas. Por exemplo, qual a razão que levou o IGAPHE a optar por vender milhares de fogos de habitação social, a custo zero, a instituições particulares de solidariedade social?

Outra decisão igualmente bizarra foi a da contratação de Jorge Coelho para consultor turístico da Associação de Turismo de Lisboa (ATL). A CML não tem responsáveis e técnicos nesta matéria? E caso precisasse de mais alguns - o que duvido! - será Jorge Coelho um especialista na matéria? Nada disso. Como explicou ao PÚBLICO o vice-presidente da CML e presidente da ATL, Fontão de Carvalho, o convite a Jorge Coelho deve-se à necessidade de "influenciar o Governo" nas decisões que este tomar e que venham a afectar o turismo em Lisboa. Ou seja vamos pagar não os serviços de consultoria de Jorge Coelho mas sim a sua influência no triângulo S. Bento, Largo do Rato, Praça do Município.

Duas idas

Ariel Sharon, a morrer. Ibrahim Rugova, morto. Aquele, viveu de ferro e de fogo e só foi estadista verdadeiro quando a horrível ceifeira já vinha a caminho. Rugova, homem de paz, foi grande mesmo sem o Estado com que sonhou e ao qual, a meu ver, nem direito tinha. Prefiro Rugova.

Dor de côto

Já me resignei a que, durante alguns tempos, vou ter de aturar os que "ganharam" a azucrinar-me o juízo. Nestes dois dias, sorrisos complacentes, "fica para a próxima!", "daqui a cinco anos há mais!", e quejandos. TODA a gente SABIA, naturalmente, que Mário Soares ia ficar em terceiro, a "lufada de ar fresco" era Manuel Alegre, a vitória de Cavaco Silva era "inevitável". Não há pachorra. E roça o ridículo que, quando já em desespero consigo dedilhar que a questão está encerrada e lanço a amigos "cavaquistas" que até os felicito democraticamente, leia de forma instantânea nas suas cabeças "coitado!, doeu-lhe mesmo..." Não há pachorra. Volta, défice, estás perdoado.

terça-feira, janeiro 24, 2006

O DOUTO RESCALDO ELEITORAL


"Cavaco Silva ganhou por 0,6 % dos votos..." (vários)

segunda-feira, janeiro 23, 2006

O que se perdeu

Pousada alguma da poeira de ontem, fiquei hoje a pensar ao longo do dia nos "resultados". Muito cruamente, parece que "perdi" em toda a linha. Temos Presidente em quem não votei, e Mário Soares (que apoiei) foi resvalando devagar nas sondagens, até se quedar, chegada a hora do ajuste, pelo pior dos lugares. Mas alguma coisa ganhei, e não foi pouco. Ganhei ainda mais admiração por um homem que, devesse ou não ter concorrido (nunca percebi a importância atribuída a essa decisão genética), não fugiu nunca e lutou quanto pôde por aquilo em que acreditava, via-se, do fundo das entranhas. E, perdendo, ganhou. Sinto-me honrado por não ter deixado de estar ao seu lado e ter podido aprender com o seu exemplo. Talvez sejam afirmações simples e fora de moda. Mas é o que agora sinto.

EM DIA DE ELEIÇÕES


Goya, Dos viejos comiendo sopa, 1820-21
Duas idosas conversam em voz alta enquanto se afastam de uma assembleia de voto na Póvoa do Varzim.
- Olha, eu votei em quem não queria - diz uma com ar enfastiado.
A outra ficou surpreendida:
- Em quem não querias, mulher!? Botastes em quem?
- Enganei-me no quadrado e, prontos, ficou assim - respondeu a primeira, encolhendo os ombros.
A amiga pareceu furiosa:
- Enganastes-te! E pedias outro papel, valha-te Deus!
- Julguei que não mo davam. Olha, agora está está...

Pois está, pensei eu.
(adaptado do Blasfémias)

Choque Ideol�gico

No rescaldo dos resultados destas eleições recupero um texto que publiquei no "Público" em Setembro do ano passado. Escrevi-o na sexta-feira, 23 de SEtembro de 2005, à medida que ia percebendo o teor das declarações que Mário Soares fizera no Brasil, mais precisamente as declarações que fizera nessa viagem para onde, segundo as suas próprias palavras, partira Pai da Pátria e voltara "grande perturbador". Uma transfiguração de que ele mesmo, Mário Soares, foi o obreiro:



24-09-2005

"O homem que passou"

"homem que passou é aquele que desempenhou a sua missão, que a desempenhou bem ou mal, não importa, e já não pode desempenhar outra, nem prosseguir a que assumira. Se é orador, a sua palavra jamais será escutada; (...); se é político, as multidões não lhe obedecerão; e nunca mais o seu braço será procurado, nem o seu conselho pedido (...). O homem que passou é o homem que já não conta, o homem com quem o tempo não conta por lhe faltar a chama interior do entusiasmo ou o favor da opinião, estas duas energias sem as quais não é possível realizar uma obra ou prosseguir um destino. (...) O que até então fora louvado será diminuído, o que fez de bom será atribuído aos outros, e se lhe mantêm a autoria logo lhe desviam o objectivo; e onde houve o propósito de fazer por bem, logo dirão que fez por mal, onde houve o maior desinteresse, logo lhe assinalarão o maior proveito. O homem que passou é como o ano que passa. No momento mesmo em que corta a meta da eternidade, o homem que passou é mal querido e insultado. Começam a insultá-lo aqueles a quem não serviu, ainda que não tenha servido com razão; depois os indiferentes; e, atraídos ou sugestionados pelo clamor, até aqueles mesmo a quem encheu de benemerências. (...) Aquele que não quer passar depois de ter passado, ainda ouvirá palmas, mas já não são palmas, são despedidas e não despedidas com saudades mas com ironias. As palmas são para o tempo, para que seja contente e caminhe mais rápido, para que mais depressa o leve."

Este texto não tem um ano nem dois. Tem quase sete décadas. Foi publicado no último dia do ano de 1938 na primeira página do jornal O Século. Tendo em conta o tema e as funções do seu autor - Manuel Rodrigues, então ministro da Justiça - imediatamente surgiram boatos e rumores sobre a identidade do "homem que passou". Aos olhos dos leitores o homem de que fala o texto só podia ser Salazar que há dez anos, em 1928, entrara para o Governo como ministro das Finanças e há seis, 1932, se tornara presidente do Conselho.Em 1938, Salazar estava longe de ser um homem politicamente acabado. Novo, tinha então 49 anos, o desfecho da guerra de Espanha e o agravar da crise na Europa davam-lhe um invulgar protagonismo internacional. Internamente a sua liderança era inquestionável e via-se acrescentada pelo lançamento de grandes projectos como a Exposição do Mundo Português. Mas aos olhos de homens como Manuel Rodrigues era então já evidente a sua incapacidade de deixar o poder. Manuel Rodrigues estava longe de supor, quando escreveu este texto, que só trinta anos depois e, mesmo assim apenas na sequência duma queda, Salazar deixaria o poder. Mas a cada ano em que permaneceu no poder ganhavam maior expressão as palavras proféticas de Manuel Rodrigues.

Manuel Rodrigues escrevia bem e, felizmente para ele e para nós, os bons textos resistem ao tempo. Infelizmente também os vícios de cada tempo tendem a acompanhar-nos geração após geração. Agarram-se-nos à pele e quando de forma definitiva os dávamos como símbolos do passado, eis que eles regressam e atravancam tudo. E a incapacidade de "passar" em política tem marcado a nossa História.Desta conjuntura entre a perenidade dos nossos vícios políticos e a intrínseca actualidade dum bom texto resulta que um texto redigido, em 1938, sobre Salazar se aplica notavelmente, em 2005, à candidatura presidencial de Mário Soares.

À medida que na manhã de sexta-feira percebia o teor das declarações que Mário Soares fizera, na véspera, no Brasil perante alguns emigrantes portugueses esta frase de Manuel Rodrigues - "(...) ainda ouvirá palmas, mas já não são palmas, são despedidas e não despedidas com saudades mas com ironias" - tornava-se-me cada vez mais presente. Quase obssessiva! Deixemo-nos de tretas: independentemente de serem ou não apoiantes de Mário Soares, quantos portugueses preferiam que Mário Soares não tivesse respondido "Fisicamente tenho boas artérias, tenho a próstata em bom estado e não tenho diabetes, portanto, tenho uma vida normal" quando interrogado sobre a influência que a sua idade pode ter nos resultados desta sua candidatura presidencial?! Nos sorrisos que estas declarações geraram existia mais embaraço que alegria - "já não são palmas, são despedidas e não despedidas com saudades mas com ironias" como diria Manuel Rodrigues. "Mário Soares reagiu com bom humor a uma pergunta sobre se a sua idade não será um impedimento para o cumprimento das funções de Presidente da República durante cinco anos." - lê-se no texto onde a agência Lusa deu conta de tais declarações. Durante quanto tempo mais as notícias sobre deslizes como este serão filtradas e devidamente introduzidas por expressões como "bom humor"? Os péssimos resultados das sondagens e o caso Alegre são os primeiros sinais do drama. Não tarda que "sugestionados pelo clamor, até aqueles mesmo a quem encheu de benemerências" comecem a desertar. Sairão discretamente de cena. Para que uns não lhes dêem pela falta e outros não se apercebam da sua presença. Mas convém que se lhes fixe o nome e o rosto. Em primeiro lugar porque são responsáveis pela promoção duma candidatura presidencial que representa uma perversão da democracia - tal como Fátima Felgueiras não estava fugida à justiça também Mário Soares se pode constitucionalmente recandidatar. Todos sabemos que assim pode ser à face da lei mas não perante os olhos e a consciência dos portugueses. Em segundo lugar fixemos-lhes os nomes porque eles são responsáveis pelo aviltamento pessoal em que esta campanha se arrisca transformar para Mário Soares. É certo que ele quis ser candidato. É certo que como o "homem que passou" de que falava Manuel Rodrigues também Mário Soares foi eliminando as possibilidades de renovação no seu campo político. Mas nada disto seria suficiente para que Mário Soares avançasse. Agora é tarde. Como lidar com isto? - esta é uma pergunta que não diz apenas respeito aos seus apoiantes. Por amarga ironia, Mário Soares está progressivamente a deixar de ser um candidato a apoiar ou um adversário a combater. Independentemente dos resultados que vier a obter, Mário Soares é o problema desta campanha presidencial. E isso é muito triste.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

mandat

Confesso que no final desta campanha presidencial mudei radicalmente a minha opinião sobre o papel dos mandatários. Ao ver Kátia Guerreiro percebi como os mandatários podem ser uma importantissima mais valia durante a campanha. Foi pena que o dr. Soares não tivesse Rosa Mota ao seu lado em funções similares.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Perda de nitidez

Sendo certo que a campanha de Garcia Pereira é um exercício unipessoal não deixa de ser curioso verificar como a entrada do candidato do MRPP deixou Louçã não com problemas de votação mas de definição de imagem.

domingo, janeiro 15, 2006

Ganhar tempo

Souto Moura adiou de terça para sexta a sua ida ao Parlamento. Pode demitir-se um Procurador Geral em dia de reflexão?

sábado, janeiro 14, 2006

Jorge Sampaio - Fotobiografia

Eis um livro que não defrauda nem deixará de ter-se por meritório entre os que vêm sendo publicados, neste final dos mandatos de Jorge Sampaio em Belém, com textos seus ("Portugueses - Volume VIII", "Com os Portugueses - dez anos na Presidência da República") ou sobre a sua personalidade, apeciada no decurso de uma vida de doação à causa pública e no multifacetismo dos interesses, apetências e realizações que incorporou e projecta. A "Fotobiografia" hoje disponibilizada conta com a escrita clara e precisa de Vasco Durão, no âmbito de um trabalho que assegurou a participação de António Costa Pinto, Diogo Gaspar, Óscar Cavaleiro e Vítor Gomes, para um retrato que não prescinde do rigor na factualidade e nas escolhas feitas, tanto no plano narrativo como no iconográfico, segundo propósitos de informação geral e na perspectiva de uma ideia desde o início reticular - "Um cidadão igual a nós".
Não cabe aqui uma qualquer nótula de análise ou sumarização de conteúdos, os que emergem de uma esfera cingida à memória pessoal e os rastreados na intervenção democrática, da luta contra a ditadura ao desempenho das mais altas funções no pós-Abril. Volto, por isso, à foto da página 124. Não por acaso. Um desses momentos em que, de forma admirável, alguém captou a expressão profunda de um homem. Um homem que profundamente admiro e amiúde vi assim: pensativo e melancólico, naquela região leve e quase saboreada da melancolia, informal, antes do cansaço que corrói, entre dois tempos, dois ramos, dois lugares de acção e poesia, o olhar algures onde não sabemos a raiz, a matéria, o rio que não pára.
Sobre ele gostaria de falar. Falarei em breve. Para evocar Jacques Derrida também. Ou, no centro do debate em torno dos poderes do Presidente da República, exprimir o que penso sobre o modo como exerce o cargo. Para já, este sinal de apreço por um álbum que bem merece a atenção dos leitores - não apenas a dos designados especialistas em ciência política e dos comentadores com voz audível na constelação dos media.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

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