sexta-feira, janeiro 27, 2006

Então, Derrida.
1994, 29 de Setembro. Reunião, em Lisboa, do Parlamento Internacional de Escritores. O dia fora intenso e, por vezes, fracturado por conflitos de pequena história. Por exemplo, o que nos opôs, ao José Saramago e a mim, a quem presidia à sessão da manhã - um Christian Salmon aflito com o modo de gerir a segurança em torno de Taslima Nasrin. Pequena, mas não irrelevante história. Outro tema, outros contos. Talvez um dia, quem sabe. Disso falávamos à mesa do jantar, no Castelo São Jorge. (Quiseram as subtilezas do protocolo que ficássemos a noite inteira conversando, ali, junto ao edil, com mais amigos. ) E do projecto das cidades-refúgio, afinal um dos objectivos do encontro promovido na Gulbenkian, de Lévinas (cujo centenário do nascimento agora passa) e cinema e teatro e música e política, por fim bebendo café e fumando, de quando em quando uma suspensão para partilhar este ou aquele debate proposto ao conjunto e, nessa circunstância, recorrendo ao anglo-americano já feito língua-franca dos presentes. A dado instante, o presidente da Câmara ergeu-se e proferiu em francês (assim homenageando a vasta maioria dos convidados estrangeiros) uma intervenção de improviso, toda ela inteligência e saber, cultura e sensibilidade aos problemas suscitados pelo Parlamento, rigor e distensão oratória. Jacques Derrida quis que lhe desse conta do percurso desse autarca raro, que se exprimia - sem rugas ou sobressaltos formais - numa língua em declínio, arrebatando pela autenticidade e por um humanismo sem alardes. As palavras foram as que aqui reproduzo, recuperadas de um dos meus diários da época. À despedida, detiveram-se uns minutos em diálogo sobre o tronco comum entre hospitalidade e hostilidade e as posições que integram tantos lugares cintilantes da filosofia derridiana. Não sei se Jorge Sampaio recorda o episódio. Eu tive, na altura, a percepção profunda de que ele seria muito em breve Presidente da República do meu país. E do país do meu afecto.