sexta-feira, janeiro 27, 2006

Orlando da Costa

Morre um grande escritor, homem e cidadão cujo percurso assumiu dimensões tão medulares como a liberdade e a honradez, o inconformismo e a ética, o risco, os perigos e a coragem de os olhar sem tibiezas, o irredutível da esfera pessoal num contexto de energias solidárias. E o afecto, o sentido crítico, a lealdade nas relações inter-humanas. É por dentro de um silêncio dorido que aqui o evoco.
Desde o início próximo das experiências neo-realistas à margem de qualquer normativismo ou registo de escola, encontrou na ficção, como os companheiros do grupo da Faculdade de Letras, um espaço de testemunho e questionamento, fusão de pulsões socilógicas e introspectivas, renovo formal e memória, uma memória fundadora do devir e como que poliedricamente facetada. Com Augusto Abelaira e David, foi um autor maior da sua geração e da literatura portuguesa na segunda metade do século XX. De O Signo da Ira a Os Netos de Norton ou O Último Olhar de Manu Miranda, sem esquecer o trabalho poético e os livros de dramaturgia, preferiu sempre o esmero técnico e a longa maturação de cada projecto a uma obra em extensão e segundo ritmos que fossem tão-só o fruto de um protocolo mercadológico. Premiado, distinguido pelos seus pares, credor e alvo de todas as manifestações de respeito e apreço, deixa-nos em plena saudade e numa tristeza imensa.
Ao longo de décadas, nenhum gesto reteve no apoio ao associativismo dos escritores. Esteve nos momentos fulcrais da SPE (extinta pela PIDE e à mão dos dignitários da ditadura) e da APE. operoso como raros, lúcido e capaz de toda a generosidade. Foi e será à luz do seu exemplo que exerci e continuarei as funções em que estou investido.
Permita-se-me que lembre, sobretudo, o dilecto amigo. E que guarde para mim, nestas horas de acritude, cada canção que permanece depois da perda, cada gesto, cada legenda ainda por nascer.
Ao António e ao Ricardo, também neste espaço público, o meu abraço. Sabem ambos o que ele diz.