quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Portugal visto do e de Benfica

Quando hoje de manhã percebi que o Benfica ganhou o jogo de ontem tomei consciência do seguinte: o Benfica é o retrato chapado do país. Como se percebe não sigo, não me interesso e tenho um forte fastio pelo futebol. Contudo o fenómeno adepto interessa-me muitissimo e os adeptos do Benfica são um caso muito particular. Nos últimos tempos desenvolveram uma técnica de sobrevivência tipicamente lusa: garantem que vão perder, andam mal humorados todo o dia do jogo, seja ele contra um grande clube ou uma equipa da terceira divisão.
Se ganham o jogo - e em regra ganham os que é suposto perderem e perdem os que é suposto ganharem! - entram numa megalomania aguda da qual caem abruptamente por via do resultado desatroso do fim de semana seguinte.
Isto é Portugal!

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

DESPORTO PERIGOSO












Via O Número Primo

domingo, fevereiro 19, 2006

O MNE falou a sério?!

Ao contrário da maior parte das pessoas apoio incondicionalmente a proposta de Freitas do Amaral de organizar uns jogos de futebol com equipas dos países muçulmanos desde que estes sejam transmitidos directamente nos respectivos países. Estádios a abarrotar de mulheres europeias aos pulos e a gritarem "Tira! Tira!" para que Cristiano Ronaldo tire a t shirt devem ter um efeito sui generis em países como a Arábia Saudita ou no Irão. As caricaturas de Maomé não passarão dum episódio insignificante ao pé do alvoroço suscitado por tal iniciativa!!!

Enquanto prepara o evento o nosso MNE pode aproveitar uma das suas viagens para ver o recente 'Offside' do cineasta iraniano Jafar Panahi. Mais domesticamente também pode ouvir na TSF Joaquim Monchique/ Bispo Tadeu a entrevistar a Irmã Lúcia. O Bispo Tadeu tem dias mas a entrevista à Irmã Lúcia é fantástica.

http://tsf.sapo.pt/online/radio/index.asp?Pagina=cromos03

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

CHOQUE DE CIVILIZAÇÕES


Cortesia Stephane Peray, The Nation, Bangkok, Thailand

PROFISSÕES PERIGOSAS


Cortesia M. e. Cohen, New Jersey (Freelance)

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

O que diria Violeta Montenegro a Freitas do Amaral?

O que diria Violeta Montenegro a Freitas do Amaral?

“O corpo sem censura de Poupée la Rose, vedeta do Crazy Horse Saloon de Paris” foi certamente uma das razões que levou mais de mil pessoas em Agosto de 1974 ao então teatro Monumental. Poupée la Rose tal como Violeta Montenegro eram as estrelas internacionais do espectáculo “O último fado em Lisboa” que se definia como “Um susexo”.
Encenado por Badaró e produzido por Vasco Morgado, “O último fado em Lisboa” era um espectáculo característico do país que éramos em 1974: “danças e cantares da URSS” misturavam-se com vedetas internacionais em final de carreira –Violeta Montenegro pusera várias libidos em polvorosa com os seus números de dança do ventre. Já Poupée la Rose não se notabilizara pela forma como mexia os abdominais mas mais precisamente pelo jeito com que se despia, mas quer num caso quer noutro tudo isso acontecera nos idos de 60! Porém este elenco a par do humor de Badaró eram mais do que suficientes para encher noite após noite (e cada noite tinha duas sessões!) a enorme sala do Monumental.
Estrelas fanadas, humor rasca e balalaicas – eis os ingredientes dum espectáculo que qualquer pessoa de bom senso pagaria para não ver. Contudo “O último fado em Lisboa” não é apenas um espectáculo lastimável. É também um nome a fixar na história da intolerância, em Portugal. Na noite de 24 de Agosto de 1974, a representação da peça foi interrompida não por um grupo de espectadores descontentes mas sim por actores que a consideravam ofensiva. Esses actores, entre os quais se contavam Mário Viegas, Graça Lobo, Filipe La Féria e César de Oliveira, então associados a correntes que se auto-designavam como de vanguarda, discordavam do teor da peça e consideravam-se no direito de impedir que ela fosse representada. Esta atitude e a arrogância que lhe está subjacente não eram de modo algum um traço exclusivo desse Verão revolucionário português. Por essa mesma altura, na Europa, vivia-se uma espécie de mini-conflito diplomático em que, dum lado, estavam países como a Suíça, a França e a República Federal Alemã e, do outro, se encontrava a República Popular da China. Tudo por causa dum filme satírico do realizador e actor francês Jean Yanne. O filme em causa intitulava-se “Os chineses em Paris” e procurava dar conta do que sucederia caso os burgueses parisienses vissem de novo a sua cidade ocupada, agora não pelos nazis mas sim pelos comunistas chineses. A República Popular da China sentiu-se ofendida e tentou impedir a exibição do filme. Como não o conseguisse, maoístas europeus interrompiam as sessões e envolviam-se em confrontos com os espectadores e as autoridades. Enfim, técnicas de intimação a que os fascistas e os nazis tinham recorrido décadas antes com assinalável sucesso.
O que é interessante no caso português de 1974 é que este e outros atentados à liberdade de expressão ocorreram ao mesmo tempo que a sociedade vivia inebriadamente um discurso de libertação, mesmo libertário em alguns casos. Ora são exactamente esses momentos aqueles em que uma sociedade pode pactuar com a perda de direitos fundamentais. Um golpe de estado, uma invasão, uma derrota numa guerra podem levar os povos a situações de grande sujeição mas esta perda de direitos é imposta pela força. De natureza completamente diferente é a alienação voluntária de direitos por parte duma sociedade democrática. Dir-se-á que esta situação não é muito frequente. Infelizmente não sendo frequente é a nossa.
A crise aberta pelos cartoons de Maomé é muitíssimo grave não pelo que revela da intolerância de certos sectores do mundo islâmico mas sim porque demonstra que a liberdade de expressão não é vista como um direito fundamental na nossa sociedade. De repente vimos ser usados todos os truques da legitimação da prepotência: os cartoons eram ofensivos e de mau gosto, o primeiro jornal que os publicou é de extrema-direita e um dos cartoonistas é xenófobo... Ou seja, cria-se um estigma que nos leva a aceitar aquilo que, para nós, é em princípio inaceitável: a censura. Nada que não se tivesse visto antes quando gente que se tinha como civilizada aceitou perseguições aos seus vizinhos, aos seus colegas, aos seus amigos. Não foi assim com os judeus na Alemanha ou com os comunistas no Chile? Agora são os cartoonistas xenófobos. Amanhã quem será?
Tivemos também direito ao discurso do sagrado e dos valores. Nós, os decadentes e corruptos europeus, já não temos nem sensibilidade nem a noção do sagrado. Logo temos de nos curvar perante a “ira” como se essa ira fosse o elo perdido na nossa relação com o divino. Esta reactualização mística do mito do bom selvagem não passaria duma anedota caso milhões de pessoas não estivessem condenadas a viver na pobreza e na ignorância por causa desta visão teocrática das sociedades. Acresce que na própria Europa milhares de mulheres são vítimas dessa “ira”.
Por fim, graças a Freitas do Amaral, ressurgiu em todo o seu esplendor a concepção do jornalismo ao serviço do estado. Os estados europeus estão envolvidos em profundas e difíceis negociações com o Irão, paira sobre o mundo o perigo dum conflito nuclear. Logo a comunicação social deve ser parte nestas movimentações através daquilo que se define como moderação. Esta tese nada tem de novo: em Portugal, de 1926 a 1974, a censura foi encarada como um exercício de moderação e, mesmo no PREC, os atentados à liberdade de expressão eram sempre apresentados como um exercício de revolta contra um excesso.
O que é interessante nas palavras de Freitas do Amaral é a concepção de que os jornais, as rádios e as televisões não podem comprometer as tais profundas e importantíssimas negociações em que os governos estão envolvidos. Se esta concepção tivesse prevalecido nunca teriam sido publicadas as fotos das torturas em Abu Grahib, nem se teria relatado o caso GAL em Espanha. Todos os dias, todos os governos têm inúmeras razões para pedirem contenção aos jornais, rádios e televisões. É certo que inúmeras vezes o fazem. O resultado apenas é eficaz a curto prazo. Por exemplo, se a imprensa francesa não colaborasse tanto com os seus governos na moderação da imagem que passa dos problemas dos subúrbios provavelmente não se tinha chegado onde se chegou.
Como numa grotesca repetição de vergonhas passadas, vemos que estão criadas as circunstâncias para se começar a negociar talhões da liberdade de expressão. Claro que não se admitirá isso. Aliás vai acentuar-se a suposta agenda libertária. Vamos todos acreditar-nos muito modernos discutindo atitudes que vamos fazer de conta que são muito revolucionárias. Para que a alienação voluntária de direitos aconteça nada mais eficaz do que viver no ritmo sincopado duma agenda progressista que nos afunila de minoria em minoria. Das maiorias não falamos porque temos medo.
Parafraseando as palavras de Violeta Montenegro, perante as agressões dos supostos revolucionários naquela noite de 24 de Agosto de 1974, “Eu penso que a liberdade não é isto.”

(publicado a 11 de Fevereiro no PÚBLICO)

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

LES NOUVEAUS MISÉRABLES

(ou o Freitismo: a peregrina e inusitada influência do nosso MNE na política internacional)

(Cortesia Filibuster)

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Choque Ideol�gico

A propósito de sensibilidades recomendo uma visita on line ao ARCO.

http://www.elmundo.es/fotografia/2006/02/arco_2006/index.html

Como se classifica o Cristo com um míssil na mão da autoria de Óscar Seco?

Inveja

Os homens são iguais. Os povos não. Os líderes muito menos
O que será necessário para que alguém tenha a lucidez de dizer isto, neste momento, na Europa?

"It is through terrorism that the people that have committed this terrible act express their values, and it is right at this moment that we demonstrate ours. I think we all know what they are trying to do - they are trying to use the slaughter of innocent people to cower us, to frighten us out of doing the things that we want to do, of trying to stop us going about our business as normal, as we are entitled to do, and they should not, and they must not, succeed.
When they try to intimidate us, we will not be intimidated. When they seek to change our country or our way of life by these methods, we will not be changed. When they try to divide our people or weaken our resolve, we will not be divided and our resolve will hold firm. We will show, by our spirit and dignity, and by our quiet but true strength that there is in the British people, that our values will long outlast theirs. The purpose of terrorism is just that, it is to terrorise people, and we will not be terrorised."
(excerto do discurso de Tony Blair a 7 de Julho, após o atentado terrorista em Londres)

POIS É...


«A partir do momento em que se aceita que não se pode tocar na questão religiosa por respeito ao islão está-se a aceitar a forma como as mulheres são tratadas no mundo muçulmano

João Miranda, Blasfémias

A POSIÇÃO "moderada" E "responsável" QUE ESTÁ EM VOGA

PT - O ALBERGUE DO REGIME

(Tópicos de uma intervenção que não teve tempo)

  • Por vezes penso que o negócio das telecomunicações está para este regime como o negócio do bacalhau estava para a ditadura - hoje, os Henriques Tenreiros têm outros nomes mas os baronatos são mais ou menos os mesmos;
  • Esta iniciativa da SONAE constituiu, até agora, o maior elogio implícito ao equilíbrio político actual do país;
  • O mesmo empresário que há pouco mais de um ano declarou que não iria mais investir em Portugal, prepara-se para fazer o maior investimento privado da história económica portuguesa - demonstra uma clara confiança no funcionamento das instituições políticas e não só;
  • Belmiro de Azevedo é uma personagem à parte no mundo dos grandes empresários nacionais - não integra a Corte do regime, não cresceu graças aos favores do Estado, não os pede e não os recebe, não se submeteu à tradicional lógica de mimética estatista que aflige o funcionamento de tantas empresas portuguesas - para já, estão aqui em jogo duas visões antagónicas do país e do mercado;
  • A PT nunca deixou realmente de ser uma empresa para-estatal:
        • - Pela golden-share que fez com que o Estado mantivesse um poder de gestão essencial;
        • Pela teimosa manutenção de privilégios que impede uma concorrência eficaz;
        • E, sobretudo, por ao longo dos anos se ter feito da PT o Albergue do Regime (a par da CGD), uma espécie de El Dorado para os empregados do sistema que já não se sentem bem com as meras regalias de funcionário público;
  • Há uma fantástica coincidência entre o discurso dos sindicatos e a prosa de estatista ofendido com que o presidente da PT nos brindou na passada terça-feira;
  • Será realmente que a PT serve o interesse nacional? (nesta dimensão não sei o que é isso – soa-me a chavão, a simples pretexto) Eu gosto de aplicar o critério do consumidor: por exemplo, a PT exige aluguer do telefone fixo, a Clix não;
  • O Governo não deverá impedir o funcionamento do mercado e deve abster-se de intervenções desequilibradoras;
  • A grandeza deste caso faz com que os empresários e a finança internacional estejam atentos àquilo que o Governo português irá fazer - caso o mercado seja condicionado, o seu livre funcionamento asfixiado, um sinal muito negativo estará a ser dado;
  • E tudo o que de bom se terá, eventualmente, conseguido com a recente visita de Bill Gates será lamentavelmente perdido – e o país dará uma imagem anacronicamente socialista que afastará interesse e investimento.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

A LER

Pedro Mexia, Os cartoons: 9 notas, no Estado Civil.
Rui Albuquerque, Barões Assinalados, no Portugal Contemporâneo.
João Miranda, O que deve ser protegido quando se fala em Liberdade de Expressão e O que a Liberdade de Expressão não é, no Blasfémias.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Vergonha!

O comunicado do MNE sobre os cartoons é um dos textos mais lamentáveis da diplomacia portuguesa! Que vergonha e que saudadee que esta gente tem duma comissão de visto prévio!

BOM SENSO, por João Miranda

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

A ler

Se isto é um blog a sério, deixem-me cá fazer uma coisa para que os blogs servem: recomendar que leiam o Rui Tavares, que só se encontra nos blogs.

A encenação da rua árabe

Há expressões que caem no goto. A rua árabe é uma delas. Já tivemos a muqata e o rais. Agora andamos na fase dos activistas - o que distingue um activista dum militante? - e da rua árabe.
Quer os activistas quer a rua árabe são apresentados como dotados duma espécie de energia vital que, de quando em quando,se manifesta. Claro que aquilo que despoleta essas manifestações são as perfídias do ocidente. Não deixa contudo de ser assombroso que ninguém se interrogue sobre quem paga aos activistas e sobretudo como se pode manifestar a rua árabe em países onde não existe liberdade de manifestação.

PERSPECTIVAS


Cortesia Filibuster

domingo, fevereiro 05, 2006

UMA PROIBIÇÃO HISTORICAMENTE "FURADA"


A Ascenção do Profeta, Jami Al-Tawarikh, "The Universal History", Rashid Al-Din, Tabriz, Persia, c. 1315.

Afinal, o Profeta foi retratado inúmeras vezes mesmo pelos seus seguidores em fé: ver aqui.

Caricatura II

No mesmo site recomendo também

http://www.elmundo.es/fotografia/2005/12/carteles/imagen3.html

Este é um dos cartazes que serviu para assinalar a presidência austríaca da UE. A senhora representada além de rainha de Inglaterra é um dos rostos da Igreja Anglicana. Quantas embaixadas austríacas já arderam?

A propósito de caricaturas (I)

Como a minha ignorância informática é imensa não sei colocar imagens. Assim sugiro que linkem

http://www.elmundo.es/elmundo/2005/05/26/espana/1117120837.html

Aí verão não dois alegres cartoonistas mas sim dois membros do governo autónomo da Catalunha - Carod Rovira e Pasqual Maragall - sorrindo enquanto um deles, Maragall, fotografa o outro, Rovira. A fotografia foi tirada em Jerusalém, durante uma viagem oficial destes dois governantes espanhóis a Israel. O sorridente senhor Rovira coloca na cabeça uma coroa de espinhos que, apesar de ser um símbolo do martírio cristão, lhe causa um estrondoso sorriso.

Quantas embaixadas espanholas foram queimadas? Quantos líderes mundiais pediram respeito pelos símbolos cristãos?

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Uma dúvida



Se Maomé não pode ser representado - como é que sabem que é Ele?

[reproduzido de A Praia]

Je vous salue, Marie

A blasfémia, o vício, a pornografia e a criminalidade são indissociáveis da liberdade.

Que os deuses e os homens nos livrem da tentação da pureza,

Bom gosto

No caso das caricaturas que representam Maomé não estamos perante uma questão de bom gosto. É sim uma questão de liberdade. É tão peculiar ver os contestatários do costume tornarem a liberdade uma questão de gosto e de sensibilidade!

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

SALVO MELHOR OPINIÃO

No Choque Ideológico de ontem, terça-feira, a dado passo, pareceu-me que o Dr. Joaquim Aguiar advogou a orientação de que após a revisão constitucional de 1982 o Governo não é responsável politicamente perante o Presidente da República (PR). Entre as várias atenuações que os poderes presidenciais teriam sofrido na primeira revisão da CRP encontrar-se-ia, precisamente, a abolição desse dever de responsabilidade política do executivo diante o PR. Facto que, consequentemente, aportaria maior espaço de manobra política para o Presidente, agora com liberdade de admoestar e, até, censurar o Governo sem ter de agir em coerência constitucional, i.e. procedendo à sua demissão.
Esta visão dos poderes presidenciais – aliás, relativamente comum em vários ambientes políticos e jurídicos – não me convence.
Desde logo reconheço a inequívoca intenção do legislador constitucional de 1982 em reduzir a capacidade interventiva do PR. E, como sustentam J.J. GOMES CANOTILHO / VITAL MOREIRA «entre o PR e o Governo existe independência funcional» dado o reforço da autonomia governativa com a primeira revisão constitucional ("Constituição da República Portuguesa Anotada", 3ª ed. revista, Coimbra, 1993, p. 555).
Mas, por outro lado, mantém-se um acervo de poderes do presidente que impendem, directa ou indirectamente, sobre o Governo. Entre os quais avultam os do art. 133.º, alínea g), da CRP ("Demitir o Governo, nos termos do nº 2 do artigo 195.º [O Presidente da República só pode demitir o Governo quando tal se torne necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas, ouvido o Conselho de Estado], e exonerar o Primeiro-Ministro, nos termos do nº 4 do artigo 186.º").
Reitero que a partir de 1982 a CRP renovou o tipo de responsabilidade política até aí existente, designadamente ao regular a demissão e a nomeação do Primeiro-Ministro e do Governo * (art. 187.º) - mas rejeito a consideração de que esta se terá desvanecido. Até porque, no caso de assim não se entender, ficaria pouco alcançada a própria faculdade do PR demitir o Governo: se este não tem qualquer tipo de responsabilidade política perante o PR qual o alicerce lógico que fundamenta o poder daquele o poder demitir?
Não é pelo facto de não constar do texto constitucional a expressão literal "responsabilidade política" quando descreve as relações entre o executivo e o PR, para que tal seja idóneo a considerar este conceito ausente das relações entre estes dois órgãos de soberania.
Também algumas opiniões da melhor doutrina constitucional têm entendido a existência de uma responsabilidade política do Governo diante do PR, embora atenuada e sem afectar a autonomia de acção do executivo. Naquela que considero ser a melhor súmula sobre esta questão, J.J. GOMES CANOTILHO e VITAL MOREIRA descrevem assim as relações Governo-PR após a revisão de 1982:

«Na verdade, mantiveram-se os dois traços característicos do chamado semipresidencialismo:

a) a dupla responsabilidade do Governo, de um lado, perante a Assembleia da República e de outro lado perante o Presidente da República, embora se tenha acentuado a eficácia daquela (passando a bastar uma moção de censura para derrubar o Governo) e tenha diminuído o alcance da segunda (visto que a demissão do Governo pelo Presidente da República passou a ser consideravelmente condicionada);

b) apreciáveis poderes de intervenção institucional do Presidente da República, que, aliás, se viram ampliados em alguns aspectos (como, por exemplo, livre dissolução da Assembleia da República)»

(J.J. GOMES CANOTILHO / VITAL MOREIRA, “Os Poderes do Presidente da República”, Coimbra, 1991, pp. 25-26; ver, ainda, dos mesmos autores, “Constituição…”, ob. cit., pp. 554-557).
Concedo que o tema não comporta a clareza desejável. Mas essa é a imperfeição mais comum da CRP que temos: plena de subjectividades, conceitos indeterminados, sinuosidades interpretativas e turbulências conceptuais mais ou menos anacrónicas. Assim, infelizmente, a divergência acerca do modelo presidencial que temos depende do intérprete e, talvez mais do que isso, do protagonista que o eleitorado designar para a função.

*numa visão mais abrangente, poderíamos, inclusivamente, incluir o poder “livre” relativo à dissolução da Assembleia da República (art. 133.º, alínea e), CRP) que, indirectamente, faz cair, também, o executivo – foi o janelão que a revisão de 1982 deixou escancarado ao pretender fechar algumas portas e por onde o ainda presidente da república enveredou em Dezembro de 2004.

A não perder

O editorial de Paulo Ferreira no PÚBLICO de ontem. Intitulado "O milagre da chuva de investimentos" alerta para as condições excepcionais que tornaram possíveis estes investimentos: "as autoridades retiraram do caminho, para estes casos concretos e à medida dos promotores, todos os bloqueios que diariamente fazem da economia portuguesa um inferno. (...) Concederam-se as licenças e as autorizações necessárias, tratou-se da "papelada" com rapidez e, muito importante, ofereceram-se apoios financeiros e benefícios fiscais que o Governo insistem em não revelar - sem que se perceba porquê, presumindo-se que são todos legítimos."

Por fim apenas mais uma observação: deixemos de associar riqueza a excentricidade. À próxima notícia sobre o quarto "normal" de Bill Gates tenho um ataque de nervos!