quarta-feira, fevereiro 15, 2006

O que diria Violeta Montenegro a Freitas do Amaral?

O que diria Violeta Montenegro a Freitas do Amaral?

“O corpo sem censura de Poupée la Rose, vedeta do Crazy Horse Saloon de Paris” foi certamente uma das razões que levou mais de mil pessoas em Agosto de 1974 ao então teatro Monumental. Poupée la Rose tal como Violeta Montenegro eram as estrelas internacionais do espectáculo “O último fado em Lisboa” que se definia como “Um susexo”.
Encenado por Badaró e produzido por Vasco Morgado, “O último fado em Lisboa” era um espectáculo característico do país que éramos em 1974: “danças e cantares da URSS” misturavam-se com vedetas internacionais em final de carreira –Violeta Montenegro pusera várias libidos em polvorosa com os seus números de dança do ventre. Já Poupée la Rose não se notabilizara pela forma como mexia os abdominais mas mais precisamente pelo jeito com que se despia, mas quer num caso quer noutro tudo isso acontecera nos idos de 60! Porém este elenco a par do humor de Badaró eram mais do que suficientes para encher noite após noite (e cada noite tinha duas sessões!) a enorme sala do Monumental.
Estrelas fanadas, humor rasca e balalaicas – eis os ingredientes dum espectáculo que qualquer pessoa de bom senso pagaria para não ver. Contudo “O último fado em Lisboa” não é apenas um espectáculo lastimável. É também um nome a fixar na história da intolerância, em Portugal. Na noite de 24 de Agosto de 1974, a representação da peça foi interrompida não por um grupo de espectadores descontentes mas sim por actores que a consideravam ofensiva. Esses actores, entre os quais se contavam Mário Viegas, Graça Lobo, Filipe La Féria e César de Oliveira, então associados a correntes que se auto-designavam como de vanguarda, discordavam do teor da peça e consideravam-se no direito de impedir que ela fosse representada. Esta atitude e a arrogância que lhe está subjacente não eram de modo algum um traço exclusivo desse Verão revolucionário português. Por essa mesma altura, na Europa, vivia-se uma espécie de mini-conflito diplomático em que, dum lado, estavam países como a Suíça, a França e a República Federal Alemã e, do outro, se encontrava a República Popular da China. Tudo por causa dum filme satírico do realizador e actor francês Jean Yanne. O filme em causa intitulava-se “Os chineses em Paris” e procurava dar conta do que sucederia caso os burgueses parisienses vissem de novo a sua cidade ocupada, agora não pelos nazis mas sim pelos comunistas chineses. A República Popular da China sentiu-se ofendida e tentou impedir a exibição do filme. Como não o conseguisse, maoístas europeus interrompiam as sessões e envolviam-se em confrontos com os espectadores e as autoridades. Enfim, técnicas de intimação a que os fascistas e os nazis tinham recorrido décadas antes com assinalável sucesso.
O que é interessante no caso português de 1974 é que este e outros atentados à liberdade de expressão ocorreram ao mesmo tempo que a sociedade vivia inebriadamente um discurso de libertação, mesmo libertário em alguns casos. Ora são exactamente esses momentos aqueles em que uma sociedade pode pactuar com a perda de direitos fundamentais. Um golpe de estado, uma invasão, uma derrota numa guerra podem levar os povos a situações de grande sujeição mas esta perda de direitos é imposta pela força. De natureza completamente diferente é a alienação voluntária de direitos por parte duma sociedade democrática. Dir-se-á que esta situação não é muito frequente. Infelizmente não sendo frequente é a nossa.
A crise aberta pelos cartoons de Maomé é muitíssimo grave não pelo que revela da intolerância de certos sectores do mundo islâmico mas sim porque demonstra que a liberdade de expressão não é vista como um direito fundamental na nossa sociedade. De repente vimos ser usados todos os truques da legitimação da prepotência: os cartoons eram ofensivos e de mau gosto, o primeiro jornal que os publicou é de extrema-direita e um dos cartoonistas é xenófobo... Ou seja, cria-se um estigma que nos leva a aceitar aquilo que, para nós, é em princípio inaceitável: a censura. Nada que não se tivesse visto antes quando gente que se tinha como civilizada aceitou perseguições aos seus vizinhos, aos seus colegas, aos seus amigos. Não foi assim com os judeus na Alemanha ou com os comunistas no Chile? Agora são os cartoonistas xenófobos. Amanhã quem será?
Tivemos também direito ao discurso do sagrado e dos valores. Nós, os decadentes e corruptos europeus, já não temos nem sensibilidade nem a noção do sagrado. Logo temos de nos curvar perante a “ira” como se essa ira fosse o elo perdido na nossa relação com o divino. Esta reactualização mística do mito do bom selvagem não passaria duma anedota caso milhões de pessoas não estivessem condenadas a viver na pobreza e na ignorância por causa desta visão teocrática das sociedades. Acresce que na própria Europa milhares de mulheres são vítimas dessa “ira”.
Por fim, graças a Freitas do Amaral, ressurgiu em todo o seu esplendor a concepção do jornalismo ao serviço do estado. Os estados europeus estão envolvidos em profundas e difíceis negociações com o Irão, paira sobre o mundo o perigo dum conflito nuclear. Logo a comunicação social deve ser parte nestas movimentações através daquilo que se define como moderação. Esta tese nada tem de novo: em Portugal, de 1926 a 1974, a censura foi encarada como um exercício de moderação e, mesmo no PREC, os atentados à liberdade de expressão eram sempre apresentados como um exercício de revolta contra um excesso.
O que é interessante nas palavras de Freitas do Amaral é a concepção de que os jornais, as rádios e as televisões não podem comprometer as tais profundas e importantíssimas negociações em que os governos estão envolvidos. Se esta concepção tivesse prevalecido nunca teriam sido publicadas as fotos das torturas em Abu Grahib, nem se teria relatado o caso GAL em Espanha. Todos os dias, todos os governos têm inúmeras razões para pedirem contenção aos jornais, rádios e televisões. É certo que inúmeras vezes o fazem. O resultado apenas é eficaz a curto prazo. Por exemplo, se a imprensa francesa não colaborasse tanto com os seus governos na moderação da imagem que passa dos problemas dos subúrbios provavelmente não se tinha chegado onde se chegou.
Como numa grotesca repetição de vergonhas passadas, vemos que estão criadas as circunstâncias para se começar a negociar talhões da liberdade de expressão. Claro que não se admitirá isso. Aliás vai acentuar-se a suposta agenda libertária. Vamos todos acreditar-nos muito modernos discutindo atitudes que vamos fazer de conta que são muito revolucionárias. Para que a alienação voluntária de direitos aconteça nada mais eficaz do que viver no ritmo sincopado duma agenda progressista que nos afunila de minoria em minoria. Das maiorias não falamos porque temos medo.
Parafraseando as palavras de Violeta Montenegro, perante as agressões dos supostos revolucionários naquela noite de 24 de Agosto de 1974, “Eu penso que a liberdade não é isto.”

(publicado a 11 de Fevereiro no PÚBLICO)